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Especiais |
Grafiteiros de ontem
Registros rupestres em Xingó
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O Museu de Arqueologia de Xingó-MAX vem mantendo uma significativa produção de publicações sobre as pesquisas e o acervo arqueológico referentes à Pré-História local. Em 1999, sob a coordenação da arqueóloga Cleonice Vergne, foram retomados os levantamentos de registros gráficos na região, a partir de uma prospecção mais detalhada no platô e em riachos, afluentes do rio São Francisco. Como resultado desse trabalho, o MAX publicou, em 2000, o catálogo “SÍTIOS DE REGISTROS GRÁFICOS DE LAGOA DAS PEDRAS, MALHADA GRANDE E MUNDO NOVO”, identificando 31 novos sítios. A partir dessa publicação, o MAX organiza a exposição dos registros coletados em ambientação cenográfica, ou seja, “Grafiteiros de ontem: registros rupestres em Xingó”.
Nos povoados Lagoa das Pedras e Malhada Grande (BA), bem como na fazenda Mundo Novo (SE), há um expressivo afloramento granítico, formando matacões rochosos que tipificam, no solo árido da região, a paisagem sertaneja. Entre alguns desses matacões há registros rupestres, predominantes em pintura monocromática vermelha e com temática geométrica. Que razões levaram o paleoindio a escolher determinados matacões para serem pintados? Por que nos painéis existem espaços em branco, hiatos visivelmente propositais? Estas questões e muitas outras se configuram como desafios a serem ultrapassados, uma vez que, para se compreender o passado, não é suficiente desenterrar artefatos de eras passadas e escrever uma história intuitiva baseada nas impressões subjetivas deles.
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| A preocupação prioritária deve ser o estudo do processo da cultura, isto é, como e por que se modificam as culturas humanas. Tem-se que questionar com maior consistência qual é a explicação para todas as diferenças, a variação presente no registro arqueológico. Portanto, a correlação entre os vestígios matériais de Xingo (líticos, cerâmicos, pinturas, gravuras e mobiliário de enterramento...), deve estar compreendida em uma leitura contextualizada. Isto significa que há que se desenvolver uma teoria melhor, uma metodologia mais apurada para a interpretação arqueológica.
Na medida em que os registros rupestres são testemunhos do homem xingoano em suas origens, desde sua relação com o ecossistema até suas emoções mais elevadas, na medida em que a imagem é um signo tão eloqüente quanto a escrita, pode-se afirmar que tais registros compreendem o primeiro livro da história da região. Mas trata-se, evidentemente, de um testemunho ambíguo e insondável, que precisa de respaldo de outras fontes de informação.
Esta exposição pretende refletir sobre as linguagens, os ícones, a estética de registros, a partir de alguns painéis selecionados em Lagoa das Pedras, Malhada Grande e Mundo Novo.
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DA LINGUAGEM SIMBÓLICA À OBJETIVAÇÃO DA CULTURA
A presença do homem é sempre ligada a ferramentas e também à produção artística. Homo faber, homo artifex.
Na evolução da humanidade, os homínidas deixaram vestígios que permitem inferir uma existência consciente-sensível-cultural. Na integração do consciente, do sensível e do cultural, se baseiam os comportamentos criativos do homem. A criação é um ato intencional e consciente.
No albor da evolução do sapiens, o homem pré-histórico, dentre outras formas de linguagem, utilizou-se com eficaz competência do relevo, da cor, do plano e do movimento na elaboração de registros rupestres. A rocha natural foi usada com grande habilidade. Embora seja um dos objetivos da antropologia o alargamento do discurso humano. há ainda, no tocante aos grafismos pré-históricos, um incômodo silêncio. Devem-se considerá-las, portanto, como uma fonte de informação antropológica. Sua interpretação, após milhares de anos, é efetuada a partir de classificações tipológicas, hipóteses e correlações etno-históricas, na tentativa de resgatar idéias e valores das sociedades extintas. Assim, a geometrização das formas, as composições e reproduções antropomorfas e/ou zoomorfas, o estilo, o cromatismo, a caracterização de conjuntos vivenciais, entre outros, são fatores determinantes considerados na taxonomia dos registros rupestres. À proporção que há tentativas para sua interpretação, surgem novas ou são reforçadas velhas teorias sobre mensagens e intenções do “artista” primitivo.
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A tendência a explicar todas as características dos registros rupestres, a partir de influências externas, é entender a subjetividade do ato criativo do ser humano. O pensamento não cresce a partir de uma reflexão incorpórea, mas está sempre ligado à situação de vida do pensador.
A função simbólica é constituinte do homem, dela emergindo a cultura, o social integrado como um sistema. Pela função simbólica, dá-se significação e vive-se significando, tornando possível a comunicação. Os homens se comunicam por meio de símbolos e de signos; para a antropologia, que é uma conversação sobre o homem, tudo é símbolo e signo que se colocam como intermediários entre dois sujeitos.
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O estudo dos registros rupestres na pré-história impõe, além de uma análise quantitativa (ordem de elementos cronológicos, seqüência da evolução técnica, temática, estile etc.), associações, influências interculturais, áreas de difusão e a ousadia interpretativa como hipótese para se chegar ao outro que somos nós. Documentos etnográficos e estudos etnológicos são imprescindíveis como lastros para o entendimento dos registros rupestres.
Prof. MSc. Fernando Lins de Carvalho
Curador |
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